Petrus LucchesiTreinador comportamental e hipnoterapeuta

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Ansiedade na hora de falar: por que a gente trava antes de abrir a boca

Por Petrus Lucchesi
23 de outubro de 2026 · 6 min de leitura

Antes de eu abrir a boca, o meu corpo já sabia. O peito fechava primeiro. Depois vinha o aperto na garganta, o ar que não descia até o fundo, as mãos geladas. Tudo isso antes da primeira palavra.

Eu cresci com gagueira. E, junto com a dificuldade de falar, fui conhecendo outra dificuldade: o medo do que aconteceria quando tentasse. Eu já tinha falado e ouvido risadas. Já tinham me imitado. Já tinham terminado uma frase por mim com aquela impaciência de quem não consegue esperar.

Com o tempo, comecei a me preparar para tudo isso antes de qualquer coisa acontecer. No livro A Identidade Roubada, descrevo esse ciclo: quanto mais temia travar, mais tenso ficava. Quanto mais tenso, mais difícil era falar. E uma nova dificuldade parecia confirmar o medo da próxima vez.

Essa é uma parte da minha história. Talvez a sua voz nunca tenha travado dessa maneira. Mas você pode conhecer a sensação de querer participar de uma conversa e, antes de dizer qualquer coisa, já estar imaginando como vão receber você.

O que você imagina que vão perceber?

Talvez você pense que vão notar o nervosismo. Que uma pausa vai parecer falta de capacidade. Que, se disser alguma coisa confusa, a pessoa descobrirá que você não é tão interessante quanto imaginava. Na sua cabeça, uma pequena dificuldade pode ganhar uma consequência enorme.

Para mim, falar tinha se tornado uma situação em que a rejeição podia acontecer de novo. Foi por isso que desenvolvi maneiras de me proteger. Desistia de uma frase. Falava depressa. Trocava palavras. Deixava de responder algo que sabia para não precisar passar por aquilo diante das pessoas.

Essas escolhas tinham uma razão na minha experiência. Eu tentava evitar um sofrimento que já conhecia. Mas, enquanto me protegia daquela possibilidade, também ficava de fora de coisas das quais queria participar.

É por isso que me interessa compreender o medo antes de cobrar que alguém simplesmente se solte. Quando olho para uma dificuldade assim, minha formação e meu trabalho terapêutico me levam a investigar o significado de estar sendo visto. O que você teme que uma dificuldade revele sobre quem é? E o que imagina perder se alguém perceber?

Isso pode se relacionar com experiências antigas, mas também com o que acontece hoje. Há ambientes em que as pessoas ridicularizam, interrompem e diminuem quem participa. Compreender o medo inclui examinar esse tratamento, sem colocar toda a responsabilidade em quem está sofrendo.

Quando você passa a vigiar cada sinal de nervosismo

Imagine que esteja numa conversa importante. Antes de falar, confere se a voz está firme, se o coração acelerou, se alguém parece impaciente. Quando nota um sinal de tensão, já pensa que começou a dar errado. Agora precisa conversar e, ao mesmo tempo, fiscalizar tudo o que acontece consigo.

Essa vigilância pode ocupar muito espaço. Você tenta descobrir como está sendo visto enquanto ainda procura acompanhar o encontro. Uma expressão séria pode virar sinal de desaprovação. Uma pausa do outro pode parecer a confirmação de que falou alguma coisa inadequada.

Uma pesquisa publicada em 2025 observou 82 participantes em conversas e falas por vídeo. Em comparação com quem tinha menor ansiedade social, participantes com maior ansiedade tendiam a dedicar mais atenção à própria imagem, especialmente os homens. O resultado descreve um contexto específico e não comprova uma solução, mas ajuda a investigar essa atenção constante à maneira como se está aparecendo. Gao, Hu e Xu, 2025.

Eu olharia para o que você faz com as informações que recebe. Consegue perceber que alguém escutou com interesse ou continua procurando o detalhe que mostraria que tudo deu errado? Depois da conversa, lembra do que foi compartilhado ou repassa apenas a palavra em que hesitou?

Essas perguntas podem ajudar a reconhecer como está vivendo a situação, sem exigir que controle perfeitamente cada reação.

Sentir nervoso significa ter um transtorno?

Podemos ficar apreensivos diante de uma conversa difícil, de pessoas novas ou de uma situação importante. Um episódio de nervosismo, sozinho, não permite concluir que exista um transtorno.

Vale prestar atenção à persistência, à intensidade e ao que esse medo começa a retirar da vida. Você deixa de encontrar pessoas? Evita pedir ajuda? Passa muitos dias antecipando uma conversa e depois se condena pelo que aconteceu? O medo está escolhendo por você onde pode estar e o que pode tentar?

O National Institute of Mental Health descreve a ansiedade social como um medo relacionado a ser observado, avaliado ou julgado, que pode interferir no cotidiano. A avaliação considera a história, a duração e o impacto dos sintomas. Você pode procurar ajuda antes de saber o nome exato do que vive. NIMH: ansiedade social.

Também quero separar uma coisa importante na minha história: gagueira e ansiedade não são a mesma condição. A gagueira do desenvolvimento envolve múltiplos fatores, incluindo aspectos genéticos e da produção da fala. O medo que descrevo não explica, por si, sua origem. Quem tem gagueira pode precisar de acompanhamento com terapeuta da fala, chamado de fonoaudiólogo no Brasil, além do cuidado com o sofrimento que possa estar associado. NIDCD: gagueira.

Por onde começar a cuidar desse medo

Antes de exigir que a próxima conversa seja perfeita, procure reconhecer o que está antecipando. “Eu tenho medo de que percebam que estou nervoso” oferece uma pergunta mais concreta do que “eu sou péssimo com pessoas”. O que você acredita que aconteceria se percebessem? Essa possibilidade se apoia no tratamento atual ou numa expectativa que costuma trazer consigo?

Pode ser importante escolher uma pessoa com quem exista espaço para dizer que aquele momento é difícil. Você também pode pedir tempo para concluir uma ideia ou explicar que precisa de uma pausa. A resposta do outro oferece informações sobre a relação, e não apenas sobre a sua capacidade de esconder o nervosismo.

Se o medo é persistente e limita sua vida, um psicólogo ou médico pode ajudar a avaliar o que está acontecendo e os cuidados apropriados. Entre os tratamentos estudados para ansiedade social está a terapia cognitivo-comportamental, que pode incluir aproximação gradual das situações evitadas, com planejamento profissional. Isso não equivale a se obrigar a enfrentar qualquer situação sozinho. Tratamentos descritos pelo NIMH.

Na minha história, aprendi a esconder muito do que queria dizer para evitar o que poderiam fazer comigo. Quando compartilho isso, quero abrir espaço para olhar também para a relação que você construiu consigo durante essas tentativas de proteção.

Você consegue continuar se respeitando se a voz tremer, se precisar de tempo ou se não encontrar uma palavra? Conseguir falar com mais liberdade importa. E merece cuidado tudo aquilo que você passou a acreditar sobre si quando falar se tornou difícil.

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