Petrus LucchesiTreinador comportamental e hipnoterapeuta

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Baixa autoestima: como ela aparece na maneira como você se trata

Por Petrus Lucchesi
23 de outubro de 2026 · 6 min de leitura

Alguém reconhece uma coisa que você fez bem, e você encontra uma explicação para diminuir aquilo. Era fácil. Qualquer um faria. A pessoa está sendo gentil. Mas basta cometer um erro para a conclusão mudar de tamanho: você é incapaz, não aprende, nunca faz nada direito.

O acerto precisa de muitas provas para ser aceito. O erro parece chegar com a sentença pronta.

Quero começar por aí porque a maneira como você se vê aparece em momentos comuns. No que diz a si depois de falhar. Na importância que permite dar a uma conquista. No quanto confia numa escolha antes de encontrar alguém que a aprove. Às vezes, você consegue cuidar de muita coisa na vida e continua se tratando como alguém em quem não vale a pena confiar.

Quando falo em autoestima, estou olhando para essa avaliação que você faz de si, para o respeito que consegue reconhecer em relação a quem é. A aparência pode participar disso, mas o assunto também atravessa sua história, suas relações e a forma como interpreta o que vive.

Quando um erro passa a explicar quem você é

Imagine que você esqueceu um compromisso. Há algo concreto a fazer: avisar, pedir desculpas, reconhecer o transtorno e procurar evitar que se repita. Mas a sua conversa interna pode ir muito além do acontecimento. Você começa a reunir outras falhas e a montar uma prova de que não presta para nada.

Nessa hora, o problema de hoje ganha o peso da sua vida inteira. E você ainda terá de lidar com o compromisso esquecido, só que agora se sentindo menor para fazer isso.

Um ponto que trago da minha formação para o trabalho terapêutico é prestar atenção à diferença entre o que aconteceu e o significado que a pessoa atribui ao acontecimento. “Eu esqueci” descreve algo que pode ser examinado. “Eu sou um fracasso” transforma esse episódio numa definição de quem você é.

Essa diferença importa porque a resposta que você dá a si também muda. Se houve uma falha, pode haver reparação, aprendizagem e ajuste. Quando você se condena por inteiro, até tentar de novo pode parecer inútil.

Não estou propondo que você passe a considerar tudo o que faz maravilhoso. Quero que consiga olhar para uma dificuldade com precisão suficiente para responder a ela, sem usar a dificuldade como motivo para se maltratar.

Por que o reconhecimento dos outros às vezes não consegue ficar

Talvez você já tenha ouvido que é competente, querido ou importante. Por alguns instantes, aquilo faz bem. Depois aparece uma dúvida: será que a pessoa conhece você de verdade? Será que continuaria pensando assim se soubesse das suas inseguranças?

Quando isso acontece, o reconhecimento encontra uma avaliação interna que continua dizendo o contrário. Você pode passar a buscar novas confirmações e, ao mesmo tempo, desconfiar delas assim que chegam.

Por isso, dizer apenas “você precisa se valorizar” pode ajudar pouco. Vale compreender o que faz uma palavra de carinho parecer menos confiável do que uma crítica. Quando alguém reconhece uma qualidade sua, o que você precisa negar para manter a opinião ruim que já tinha sobre si?

Essa opinião pode ter sido alimentada por comparações, humilhações, exigências constantes ou relações em que você se sentiu pouco considerado. Mas também pode se relacionar a experiências posteriores, dificuldades atuais e ao modo como vem interpretando o que acontece. A história merece investigação, sem uma causa escolhida antes de ouvir a pessoa.

Você consegue se corrigir sem se humilhar?

Tem gente que teme perder a vontade de melhorar se deixar de se cobrar com dureza. Como se a ofensa fosse o que ainda mantém tudo funcionando: se eu pegar leve comigo, vou me acomodar.

Eu olharia para o que essa cobrança está produzindo. Ela ajuda você a reconhecer um erro e agir ou faz esconder o que aconteceu, desistir antes de começar e viver tentando evitar a próxima condenação?

Uma pesquisa com 5.785 universitários, acompanhados ao longo de três anos, encontrou relações entre tratar a si mesmo com mais compreensão diante das dificuldades e apresentar, depois, melhor autoestima e menos sintomas depressivos. As relações também apareceram no sentido inverso. O estudo foi publicado online em 2024 e em fascículo de 2025; é um acompanhamento de jovens, não uma prova de que uma frase ou exercício produzirá o mesmo efeito em todos. Shi e colaboradores.

Essa compreensão pode ser bastante concreta. Você consegue admitir que errou e que precisa reparar o que fez. Também consegue reconhecer que estava cansado, que não sabia alguma coisa ou que precisa de ajuda para mudar. Uma informação não apaga a outra.

O cuidado aparece na disposição de permanecer ao seu lado enquanto assume uma responsabilidade. Você continua sendo alguém que merece respeito durante esse processo.

O que você aprendeu a sentir diante de si?

Em A gaia ciência, Nietzsche pergunta:

“Qual é o selo da libertação? Não mais se envergonhar de si mesmo.”

Friedrich Nietzsche, §275, tradução livre a partir do inglês. Trecho da obra.

Eu aproximo essa pergunta do nosso tema para olhar para uma vergonha que pode ultrapassar qualquer comportamento específico. Você sente vergonha de ter feito alguma coisa ou de existir como é, com necessidades, limites e uma história que não consegue deixar de ter?

Há uma diferença importante aí. Podemos rever uma atitude, reconhecer um dano e mudar uma escolha. Mas, quando a própria pessoa vira o problema inteiro, ela pode passar a vida tentando conquistar autorização para ser alguém.

A reflexão que proponho é perceber de onde vem essa condenação e se ela continua sendo uma maneira justa de olhar para você. Isso não exige concordar com toda escolha sua. Exige conseguir examiná-la sem partir da certeza de que você vale menos.

Por onde começar na vida de verdade

Na próxima vez que se julgar depois de um erro, procure identificar o que está dizendo a si. Descreva o acontecimento antes de concluir quem você é. O que fez? Qual foi o impacto? O que pode reparar ou aprender? Qual parte da condenação já não descreve o episódio, mas uma opinião antiga sobre você?

Também vale observar o movimento contrário. Quando fizer algo bem, tente reconhecer a sua participação antes de explicar por que não conta. Pode ter recebido ajuda, ter tido sorte em algum ponto e ainda assim ter se dedicado. Uma conquista não precisa ser perfeita ou solitária para ser sua também.

Essas observações não resolvem uma história inteira. Se a desvalorização é persistente, prejudica suas relações ou vem acompanhada de sofrimento intenso, procurar acompanhamento profissional pode ajudar a compreendê-la com mais cuidado.

Você não precisa terminar o dia convencido de que é extraordinário. Mas vale conseguir chegar ao fim de uma dificuldade sem ter de se destruir por dentro para reconhecer que alguma coisa precisa mudar.

Se quiser olhar para isso de forma individual

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Referências citadas

  1. Shi e colaboradores
  2. Trecho da obra

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