Petrus LucchesiTreinador comportamental e hipnoterapeuta

Blog · Relações

Como parar de se diminuir para ser aceito

Por Petrus Lucchesi
23 de outubro de 2026 · 8 min de leitura

Tem um conselho que parece resolver tudo: “Você precisa parar de se importar com o que os outros pensam”. Agora me fala uma coisa: como você faz isso quando acredita que, se decepcionar alguém, pode perder o amor dessa pessoa? Quem está de fora enxerga uma escolha simples. Você pode estar enxergando a possibilidade de ficar sozinho.

Eu quero olhar para esse medo antes de sair dizendo que você precisa se impor. Porque talvez você já saiba o que quer mudar. O que pesa é imaginar sua mãe decepcionada, seu companheiro se afastando, alguém dizendo que você ficou egoísta. Pode ser uma reação que você já conheceu ou uma possibilidade que teme. Mas percebe o tamanho do que está em jogo? Você está tentando fazer uma escolha por você e, ao mesmo tempo, tentando garantir que as pessoas continuem querendo você por perto.

Você pensa em descansar, em fazer um plano diferente, em dizer que alguma coisa o machucou. Mas, antes de considerar essa necessidade, já começa a se perguntar se tem o direito de sentir aquilo. Será que está exagerando? Será que devia compreender mais? Será que vai parecer ingrato?

O outro nem sempre precisa pedir que você ceda. Você mesmo procura motivos para deixar o que precisa para depois.

O que você teme perder quando desagrada alguém?

Um cuidado que trago da minha formação e do meu trabalho terapêutico é olhar para o significado que uma situação assume na vida da pessoa. A mesma frase, “hoje eu não vou”, pode significar descanso para alguém e ameaça de abandono para outro. Antes de recomendar que você mude a atitude, eu quero entender o que você acredita estar arriscando com essa mudança.

Se alguém fica chateado com uma escolha sua, o que isso passa a significar para você? Que essa pessoa queria outra coisa? Que vocês precisam conversar? Ou que você foi egoísta, deixou de merecer carinho e agora precisa fazer alguma coisa para recuperar seu lugar?

Percebe a distância entre essas possibilidades? Uma pessoa pode se frustrar com você e continuar amando você. Mas, se na sua história essas duas coisas ficaram difíceis de separar, uma frustração pode parecer o começo de uma perda muito maior.

Pensa numa criança que recebe carinho quando corresponde, mas encontra afastamento ou humilhação quando contraria os adultos. Ela depende daquelas pessoas. Pode começar a vigiar o que faz, o que pede e até o que demonstra sentir para tentar preservar a proximidade com elas. Se ser a criança que nunca dá trabalho parece garantir afeto, ela pode aprender a esconder aquilo que daria trabalho aos outros.

Pesquisas sobre o carinho e a aprovação percebidos como dependentes de corresponder às expectativas dos pais encontraram relações com maior cobrança interna e oscilações na autoestima. Isso ajuda a investigar uma possibilidade; não permite determinar a história de quem está lendo. Assor, Roth e Deci, 2004.

Também não significa que toda dificuldade tenha começado na infância ou na família. Outras experiências entram nessa história, inclusive as relações que você mantém hoje. O que me interessa é compreender se uma maneira de preservar a proximidade acabou virando uma exigência que você faz a si mesmo: para continuar sendo querido, preciso querer menos, pedir menos, incomodar menos.

Você diz que está tudo bem. O que fica de fora dessa resposta?

Imagine que sua família espere uma visita no fim de semana. Você está cansado, quer ficar em casa, mas já começa a procurar uma justificativa que ninguém possa questionar. Precisaria estar doente? Precisaria ter outro compromisso? Só estar cansado parece pouco.

Talvez você decida ir porque aquele encontro é importante e consiga ficar em paz com essa escolha. Fazer uma concessão também faz parte de amar alguém. Mas você pode ir com raiva de si por ter aceitado de novo, passar o dia esgotado e voltar pensando que ninguém considera o seu cansaço. Enquanto isso, as outras pessoas podem nem saber que você queria descansar.

É essa situação que quero chamar de se diminuir: suas necessidades vão ficando fora das decisões porque você teme o que pode acontecer se elas aparecerem. Você entende quando o outro precisa de espaço, mas se acusa de egoísmo quando também quer ficar sozinho. Compreende o limite de alguém e continua exigindo de si uma disponibilidade que já não tem.

Uma pesquisa publicada em 2025 examinou dois grupos de casais belgas, com 101 e 130 casais. Esconder as emoções esteve associado a menor proximidade e à percepção de que o parceiro respondia menos às próprias necessidades. Esse resultado não transforma todo silêncio em problema, mas convida a observar o que acontece quando esconder o que você sente vira uma exigência constante. Sels e colaboradores, 2025.

Eu quero chamar sua atenção para uma coisa: você pode estar conseguindo evitar uma conversa difícil enquanto fica cada vez mais difícil viver aquela relação. A visita acontece, o encontro termina sem discussão, todo mundo parece satisfeito. Só que você volta para casa com algo que não conseguiu colocar ali.

Em A doença para a morte, numa reflexão sobre a relação da pessoa consigo mesma e com Deus, Kierkegaard escreve:

“O maior perigo, o de perder a si mesmo, pode passar tão silenciosamente como se nada fosse.”

Søren Kierkegaard, tradução livre do trecho em inglês. Texto da obra.

Eu aproximo essa passagem do nosso tema porque esse afastamento de si pode acontecer enquanto a vida continua funcionando. Você cumpre os compromissos, atende às expectativas, mantém as pessoas por perto. Mas, quando alguém pergunta o que você gostaria de fazer, percebe que está mais acostumado a descobrir o que os outros preferem do que a escutar a própria resposta.

Com quem você sente que pode ser você?

Essa pergunta importa porque talvez você tenha liberdade com algumas pessoas e muito receio com outras. Pode discordar de um amigo sem temer perder a amizade, mas passar dias se preparando para contrariar alguém da família. Pode se sentir à vontade em casa e se vigiar o tempo inteiro numa relação amorosa.

Um estudo publicado em junho de 2026 reuniu entrevistas e relatos escritos de 53 jovens adultos em universidades internacionais na Tailândia. Os participantes descreviam diferenças entre as relações em que conseguiam se expressar e aquelas em que escondiam o que pensavam ou sentiam. A segurança que percebiam em cada relação apareceu como uma distinção importante. É um estudo pequeno, baseado em relatos, que ajuda a formular perguntas, sem representar todas as pessoas. Grothaus, 2026.

Por isso, além de perguntar de onde vem seu medo, vale observar o que acontece hoje. Quando você apresenta uma necessidade, encontra espaço para conversar? A pessoa pode ficar frustrada e ainda assim escutar você? Ou transforma sua recusa em humilhação, ameaça e punição?

Compreender a própria história inclui reconhecer o tratamento que você recebe no presente. Se há risco real, procure apoio e considere sua proteção antes de se expor. Não transforme uma situação perigosa numa prova de que precisa ter mais coragem.

Como começar a considerar o que você também precisa

Voltemos ao fim de semana. Antes de preparar uma justificativa para a família, tente admitir para si: eu quero descansar. Você pode sentir saudade deles e precisar ficar em casa. Pode amar aquelas pessoas e não conseguir atender ao convite daquela vez.

Depois, procure entender o que torna essa escolha tão difícil. Você teme magoar alguém? Ser chamado de ingrato? Passar a ser menos procurado? Existe algo que costuma acontecer quando você contraria essa pessoa ou você está antecipando uma reação que ainda não conhece?

Em uma relação em que exista espaço para conversar, você pode dizer que precisa descansar e combinar outro dia. Não há garantia de que todos vão gostar. Mas observe o que realmente acontece, em vez de tomar o medo como confirmação de que a relação vai acabar.

Se vier culpa, olhe para o motivo. Você descumpriu algo que havia combinado? Deixou alguém numa situação difícil sem avisar? Então pode haver uma responsabilidade a assumir e algo a reparar. Mas, se o incômodo vem de ter escolhido diferente do que esperavam, vale escutá-lo sem concluir imediatamente que fez alguma coisa errada.

Isso também exige disposição para ouvir o outro. Você pode perceber um impacto que não tinha considerado e rever sua escolha. A conversa fica mais honesta quando o que você precisa também participa dela, em vez de ser descartado antes de começar.

Se esse medo se repete em muitas áreas da sua vida, um acompanhamento profissional pode oferecer espaço para compreender sua história e trabalhar essas escolhas com cuidado. Você não precisa resolver tudo sozinho nem mudar todas as relações de uma vez.

Você continuará querendo ser amado e se importando com pessoas importantes. O que proponho é prestar atenção ao que acontece com você enquanto tenta preservar esse amor. Se, para manter a relação, precisa esconder continuamente o que sente e abrir mão do que precisa, isso merece cuidado.

Na próxima escolha, antes de perguntar apenas como evitar que alguém fique chateado, procure reconhecer o que está acontecendo com você. Seu cansaço, sua vontade ou sua dor precisam ter lugar nessa conversa também.

Se quiser olhar para isso de forma individual

Conhecer o atendimento em hipnoterapia

Subsolo da Consciência · gratuito · online

Quer continuar essa conversa?

Toda semana, um tema como este vira uma aula ao vivo no Subsolo. O tema, a data e o link chegam pelo grupo de WhatsApp.