Petrus LucchesiTreinador comportamental e hipnoterapeuta

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Por que você sente culpa quando faz algo por si?

Por Petrus Lucchesi
23 de outubro de 2026 · 6 min de leitura

Você finalmente conseguiu um tempo para fazer uma coisa de que gosta. Ninguém ficou desamparado, o que era necessário foi combinado, mas uma parte sua continua inquieta. Talvez devesse estar ajudando alguém. Talvez tivesse alguma coisa mais útil para fazer. Aproveitar aquele tempo começa a parecer uma falta com as pessoas que ama.

Por fora, você está descansando. Por dentro, está tentando provar que merece estar ali.

Eu quero olhar para essa culpa porque ela pode fazer você desistir do cuidado antes mesmo de perceber do que precisa. Você adia a consulta, cancela um encontro, volta para a tarefa que poderia esperar. Depois se pergunta por que está sempre cansado e por que até as coisas de que gosta começaram a trazer peso.

O que você acredita que está fazendo de errado?

A culpa merece ser escutada. Ela pode aparecer quando percebemos que prejudicamos alguém, faltamos a um compromisso ou agimos contra algo em que acreditamos. Nesse caso, ajuda perguntar qual foi o dano e o que pode ser reparado.

Mas, quando você cuida de si, vale examinar o acontecimento antes de aceitar a acusação. Você deixou alguém sem um cuidado de que precisava ou reservou um tempo enquanto outra pessoa assumia uma responsabilidade que também era dela? Descumpriu uma combinação ou contrariou a expectativa de estar sempre disponível?

Essas situações pedem respostas diferentes. Se alguém ficou desassistido, há algo a organizar. Se o desconforto surgiu porque você também quis participar da própria vida, talvez a pergunta precise se voltar para a regra que está usando para julgar essa escolha.

Qual é essa regra? Uma boa mãe nunca quer ficar sozinha? Uma pessoa generosa atende a todos antes de pensar em si? Quem ama não se cansa de cuidar? Quem recebeu ajuda no passado agora tem de compensar sem limite?

Eu não escolheria uma dessas explicações para você. Procuraria compreender qual delas, se alguma, aparece na sua história e como passou a orientar suas decisões.

Quando cuidar dos outros vira a única maneira de se reconhecer

Há pessoas que cresceram sendo reconhecidas por ajudar, compreender, resolver e não precisar de quase nada. Talvez houvesse afeto de outras formas também. Mas, se o lugar de quem cuida se tornou o mais seguro ou o mais valorizado, pode ser difícil admitir uma necessidade que interrompa esse papel.

É nesse ponto que meu olhar para os aprendizados e para as relações entra na conversa. A questão vai além de encontrar um horário livre. Quero compreender o que passa a acontecer com a imagem que você tem de si quando usa aquele horário para você.

Se descansar faz sentir que deixou de ser uma pessoa boa, a agenda pode estar aberta e o descanso continuar proibido por dentro. Você encontra uma nova tarefa, responde a uma mensagem, procura alguém que precise de alguma coisa. Ao voltar a ajudar, talvez a culpa diminua. Só que a sua necessidade permanece sem atendimento.

Esse movimento precisa ser compreendido com cuidado. Uma história de cuidado também pode conter amor, escolha e prazer em estar disponível. A dificuldade aparece quando você já não consegue considerar outra possibilidade sem se condenar.

A falta de apoio também precisa entrar na conversa

Seria injusto falar de tudo isso como se bastasse mudar o pensamento. Algumas pessoas têm pouca rede de apoio, muitos cuidados sob sua responsabilidade e quase nenhuma margem para parar. Outras até poderiam dividir as tarefas, mas vivem cercadas por expectativas de que cuidar é obrigação exclusiva delas.

Uma pesquisa publicada em 2025 entrevistou 12 mulheres com bebês de menos de um ano. O tempo para si era escasso e, quando existia, vinha associado à culpa. É um grupo pequeno e específico, que não representa todas as pessoas. Ainda assim, o estudo ajuda a olhar para uma dificuldade concreta: reconhecer a necessidade de cuidado não garante ter condições, apoio ou tranquilidade para recebê-lo. Bettison e Devonport, 2025.

Por isso, quando alguém diz que você precisa se priorizar, vale perguntar como. Quem pode dividir uma tarefa? O que precisa ser combinado? Existe uma expectativa que todos se acostumaram a manter porque você sempre deu conta, mesmo pagando um preço alto por isso?

O trabalho de compreender sua história pode caminhar junto com mudanças nessas condições. Você não deveria precisar resolver sozinho até a falta de ajuda que está esgotando você.

Cuidar de si precisa contrariar o cuidado com os outros?

No livro IX da Ética a Nicômaco, Aristóteles examina uma pergunta que continua interessante: amar a si mesmo é sempre algo condenável? Ao distinguir formas diferentes desse amor, ele considera uma maneira de agir que faz bem à própria pessoa e também aos outros. Aristóteles, livro IX, capítulo 8.

Eu trago essa reflexão para questionar uma associação que pode estar custando caro: a ideia de que tudo o que faz bem a você necessariamente retira alguma coisa de quem ama.

Na vida real, precisamos considerar consequências. Às vezes, uma vontade terá de esperar porque alguém precisa de nós. Em outros momentos, será preciso dividir o cuidado ou aceitar que outra pessoa faça de um jeito diferente. O que merece atenção é se a sua parte fica sempre para um futuro que nunca chega.

Você também existe nessa relação. Sua saúde, seu descanso e a possibilidade de viver alguma coisa que lhe dê prazer precisam entrar nas decisões, com a mesma seriedade com que você considera as necessidades dos outros.

O que fazer quando a culpa aparece

Escolha uma situação recente e procure separar três coisas: o que você precisava, o que fez e qual foi o efeito real sobre as outras pessoas. Depois observe a acusação que veio. Ela descreve aquele efeito ou exige que você nunca tenha uma necessidade própria?

Imagine que tenha combinado uma hora para caminhar enquanto alguém de confiança cuida do seu filho. A criança está assistida e a responsabilidade foi acordada. Se a culpa vier, você pode verificar se surgiu alguma necessidade concreta. Mas também pode reconhecer que estar longe por um período combinado não significa ter deixado de cuidar.

Em outra situação, talvez você perceba que não avisou alguém ou deixou uma tarefa importante sem organização. Então pode ajustar isso. Conseguir rever a forma como fez algo não obriga a abandonar a necessidade que tentou atender.

Um acompanhamento profissional pode ajudar quando essa culpa se repete, governa suas escolhas e faz qualquer cuidado parecer uma ameaça a quem você é. A investigação pode incluir sua história, os papéis que aprendeu a assumir e o que continua sendo exigido nas relações atuais.

Na próxima vez que conseguir um tempo para si, preste atenção se passa o tempo inteiro montando uma defesa. Talvez exista algo real a reorganizar. Talvez exista uma cobrança antiga que precise ser compreendida. Vale descobrir antes de cancelar, mais uma vez, aquilo de que você também estava precisando.

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