Petrus LucchesiTreinador comportamental e hipnoterapeuta

Blog · Experiências da infância

Como experiências da infância podem influenciar a maneira como você se vê hoje

Por Petrus Lucchesi
23 de outubro de 2026 · 6 min de leitura

Você já construiu uma vida, assumiu responsabilidades, aprendeu a resolver muita coisa. Mas há situações em que se sente pequeno de um jeito que não combina com tudo o que sabe sobre si. Um tom de voz mais duro, uma comparação, alguém demonstrando decepção. De repente, parece que precisa provar outra vez que merece estar ali.

Quando isso acontece, talvez você se cobre por ainda reagir assim. Já deveria ter superado. Já é adulto. Já faz tanto tempo.

Eu quero olhar para esse tempo com você. Algumas experiências terminam, mas as conclusões que construímos a partir delas podem continuar participando da maneira como nos vemos. Compreender essa influência exige escutar a história concreta e perceber o que acontece no presente, sem decidir antecipadamente que toda dificuldade nasceu na infância.

O que aconteceu e o que você passou a acreditar sobre si

Pense numa criança que tenta fazer alguma coisa e é frequentemente ridicularizada quando erra. Ela ainda está aprendendo. Precisa de orientação, oportunidade de tentar e uma relação em que o erro possa ser corrigido. Mas pode começar a entender aquele tratamento como uma informação sobre quem é: sou incapaz, sou um problema, é melhor não tentar na frente de ninguém.

Outra criança pode enfrentar uma dificuldade semelhante e encontrar alguém que a ajude a compreender o erro sem humilhá-la. O acontecimento e o modo como ela é acompanhada não são a mesma coisa. As relações participam do sentido que uma experiência assume.

Ao investigar a história de uma pessoa, presto atenção justamente a essas ligações: o que ela viveu, como entendeu o que viveu e quais conclusões ainda usa para olhar para si. Esse cuidado atravessa meu repertório de formação e meu posicionamento terapêutico.

Uma conclusão pode ter parecido muito convincente naquela época e continuar sendo repetida depois, mesmo diante de informações diferentes. Você consegue realizar uma tarefa, mas trata o resultado como sorte. Recebe cuidado, mas fica esperando que a pessoa descubra algum defeito e vá embora. Antes de examinar o que está acontecendo agora, uma expectativa antiga já oferece a explicação.

Esses exemplos ilustram possibilidades. Não permitem concluir que alguém viveu uma situação específica só porque hoje sente insegurança.

O que as pesquisas ajudam a compreender

Uma revisão publicada em junho de 2025 reuniu 203 estudos sobre maus-tratos na infância e aspectos da vida adulta, incluindo autoestima e manejo das emoções. Encontrou associações com dificuldades nessas áreas, especialmente em experiências de abuso e negligência emocionais. Os resultados variavam entre os tipos de experiência e as populações; predominavam estudos com relatos retrospectivos. Portanto, ajudam a compreender relações possíveis, sem determinar a causa ou o futuro de uma pessoa. Fares-Otero e colaboradores, 2025.

Essa distinção importa. Duas pessoas podem ter passado por dificuldades parecidas e construído modos diferentes de lidar com elas. Podem ter encontrado apoio em momentos diferentes, vivido outras relações, recebido cuidados e atribuído sentidos distintos ao que aconteceu.

Também há experiências dolorosas na vida adulta que mudam a maneira como alguém se vê. Uma relação abusiva, perdas, adoecimento, discriminação ou humilhações repetidas podem fazer parte da investigação. A infância merece atenção sem se tornar uma explicação escolhida para tudo.

Quando falo em olhar para dentro, quero compreender essa história com profundidade suficiente para respeitar suas diferenças. A pessoa precisa caber na investigação, inclusive quando sua experiência não confirma a hipótese que parecia mais provável.

Sua história também pode conter lugares de cuidado

Ao olhar para o passado, vale reconhecer o que machucou e também o que ajudou você a atravessar uma dificuldade. Talvez uma amizade, um professor, alguém da família, uma atividade em que encontrou espaço para existir com menos receio. Se houve cuidado, ele também faz parte da sua história.

No epílogo de Os irmãos Karamázov, Aliócha conversa com os meninos depois da morte de Iliúcha e destaca o valor de:

“uma boa lembrança, especialmente uma lembrança da infância, de casa”.

Fiódor Dostoiévski, epílogo, capítulo III. Tradução livre de um trecho da versão inglesa de Constance Garnett. Texto do romance.

Eu trago essa passagem como uma reflexão literária sobre aquilo que pode permanecer conosco. Uma lembrança de cuidado pode ajudar a reconhecer que houve alguém diante de quem você não precisava se defender o tempo inteiro. Isso merece lugar, sem apagar outras experiências.

Se você não encontra uma lembrança assim, não precisa inventá-la ou se obrigar a sentir gratidão para tornar a história mais aceitável. O que houve de doloroso continua merecendo escuta. E as relações de cuidado que você construiu depois também podem entrar nessa compreensão.

O que continua acontecendo quando a experiência já terminou?

Talvez você tenha aprendido a não pedir ajuda para evitar ser tratado como um peso. Hoje, pode estar ao lado de alguém disposto a ajudar e continuar tentando dar conta de tudo sozinho. Nesse caso, vale observar tanto o aprendizado quanto a relação atual.

Essa pessoa oferece ajuda e respeita você quando precisa dela? Ou usa o cuidado para cobrar, controlar e humilhar? A resposta muda o que precisa ser considerado. Você pode estar antecipando um tratamento antigo, mas também pode estar reconhecendo um problema que continua existindo.

Por isso, compreender a história não significa convencer alguém a suportar melhor uma situação que o machuca. Às vezes, é preciso apoio para mudar as condições atuais, estabelecer proteção e encontrar outras possibilidades de relação.

Em outras situações, existe espaço para viver uma experiência diferente: pedir uma ajuda pequena, admitir que não sabe algo ou expressar uma necessidade e perceber como aquela pessoa responde. Isso pode oferecer informações sobre o presente. Não é uma garantia de acolhimento nem uma prova que você precise fazer sozinho.

Como começar a olhar para essa ligação

Escolha uma situação atual que costuma fazer você se sentir menor. Procure descrever o que aconteceu e o que concluiu sobre si. Depois, se houver uma lembrança que reconheça com clareza, observe se essa conclusão se parece com algo que já pensava antes.

Você não precisa forçar uma memória ou preencher o que não sabe. Pode reconhecer: “Quando alguém se decepciona, eu me sinto sem valor. Não sei ainda de onde vem essa ligação”. Isso já apresenta uma pergunta real para trabalhar num acompanhamento.

Também vale perguntar o que os fatos de hoje mostram. Existe alguma informação que você costuma descartar para continuar acreditando naquela conclusão? Há pessoas que reconhecem você, experiências em que conseguiu aprender e momentos em que precisou de cuidado e o recebeu?

Olhar para essas informações não apaga o que aconteceu. Pode ajudar a perceber se a avaliação que faz de si ficou presa a uma parte da história e deixou de considerar o que veio depois.

Se esse processo desperta sofrimento intenso, um acompanhamento profissional pode oferecer espaço e cuidado para investigá-lo. Você não precisa reviver tudo de uma vez nem compreender sozinho cada parte do passado.

O que você viveu merece ser levado a sério. E a pessoa que você é hoje também precisa ser conhecida para além do que fizeram com ela ou do que aprendeu a pensar sobre si naquele tempo.

Se quiser olhar para isso de forma individual

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