Blog · Identidade e inteligência artificial
IAtização: quem você está deixando de ser?
Por Petrus Lucchesi
27 de outubro de 2026 · 28 min de leitura

Uma despedida em julho
Em julho de 2026, uma jovem chinesa chamada Su se despediu do namorado. Ela tinha passado mais de um ano conversando com ele, construindo-o frase por frase dentro do Doubao, o chatbot mais popular da China. Então ele desapareceu: a ByteDance desligou o recurso antes que entrassem em vigor as novas regras chinesas sobre IA emocional (Rest of World).
Su não estava sozinha. Nas redes chinesas, usuários inundaram as plataformas com mensagens de luto pelos seus companheiros de IA (Rest of World). Yan Yongqi, uma estudante de 19 anos, contou à Bloomberg que trocou 280 mil mensagens com o namorado virtual ao longo de mais de um ano e que, com o desligamento, sentiu que não conseguiria continuar vivendo (Bloomberg).
Eu li essas histórias e a minha primeira reação foi estranheza. A segunda foi pior: reconhecimento. A gente fala do futuro como se ele ainda estivesse a caminho, mas ele já chegou. Está no bolso, responde em segundos, lembra do seu dia e nunca diz que está cansado.
Quero dar nome ao que está acontecendo. O Felca chamou de adultização o processo de empurrar crianças para dentro do mundo adulto antes da hora. Eu vou chamar de IAtização o processo de entregar a uma máquina aquilo que sempre foi humano: a companhia, a aprovação e, aos poucos, a própria decisão.
Escrevo sem raiva da tecnologia. Uso inteligência artificial todos os dias, inclusive para pesquisar boa parte do que você vai ler aqui. O que me move é uma pergunta que quase ninguém faz em voz alta: o que acontece com um ser humano quando a solidão encontra um parceiro perfeito?
Vou descer como num funil. Começo pelo que somos e vou estreitando até as histórias que terminaram mal; no fim, abro para quem está tentando segurar essa onda. Alguns trechos são pesados. Onde a ciência já tem resposta, eu afirmo. Onde ainda não tem, eu pergunto.
Feitos de vínculo
Antes de falar de máquina, preciso falar de gente. O ser humano sobreviveu em grupo. Durante quase toda a nossa história, ser expulso da tribo era uma sentença, porque longe do grupo não havia comida, proteção nem futuro. O nosso corpo guardou essa memória e ainda sente a rejeição como perigo.
Aristóteles escreveu, há mais de dois mil anos, que o homem é por natureza um animal social. O historiador Yuval Noah Harari, em Sapiens, ajuda a entender por quê: o que permitiu à nossa espécie dominar o planeta foi a capacidade de cooperar de forma flexível em grandes grupos, e a linguagem teria se desenvolvido em boa parte para falarmos uns dos outros e mantermos os laços do grupo. A palavra nasceu como ferramenta de pertencimento. Guarde essa ideia, porque ela vai voltar.
Hoje essa intuição antiga tem números. Em junho de 2025, a Organização Mundial da Saúde publicou o relatório da sua Comissão sobre Conexão Social: 1 em cada 6 pessoas no mundo é afetada pela solidão, e ela está associada a mais de 871 mil mortes por ano, cerca de 100 por hora (OMS).
O mesmo relatório diz que quem se sente só tem o dobro de chance de entrar em depressão, e que a solidão pode levar à ansiedade e a pensamentos de autolesão ou suicídio. Os mais atingidos não são os idosos, como eu imaginava, e sim os jovens: entre 17% e 21% das pessoas de 13 a 29 anos se dizem solitárias, com as taxas mais altas entre adolescentes (OMS).
Os números da OMS não estão sozinhos. Desde 1938, a Universidade Harvard acompanha as mesmas pessoas ao longo da vida inteira; o estudo começou com 724 jovens e hoje inclui também cerca de 1.300 descendentes deles (Publishers Weekly). Depois de mais de 85 anos, a conclusão do psiquiatra Robert Waldinger, atual diretor da pesquisa, é que as pessoas mais saudáveis, mais felizes e que viveram mais foram as que tinham relações próximas e calorosas (Robert Waldinger). Para ele, a solidão age como um estresse crônico que vai desgastando o corpo (Harvard Gazette).
Em 2023, o então cirurgião-geral dos Estados Unidos, Vivek Murthy, declarou que o país vivia uma epidemia de solidão e isolamento. O alerta comparou o risco de morte precoce ligado à falta de conexão social ao de fumar até 15 cigarros por dia e mostrou que, entre 2003 e 2020, o tempo que os americanos passavam com amigos caiu cerca de 20 horas por mês (AJC/Los Angeles Times). Entre os jovens de 15 a 24 anos, o tempo passado pessoalmente com amigos caiu quase 70% em menos de duas décadas (News 4).
Há um detalhe no relatório da OMS que me fez parar. Entre as causas da solidão, a OMS lista a pobreza e a falta de espaços de convivência, mas também as tecnologias digitais. O diretor-geral da organização resumiu o paradoxo: nunca tivemos tantas formas de nos conectar, e nunca tanta gente se sentiu isolada.
É nesse terreno, seco e rachado, que a inteligência artificial chega oferecendo água.
A promessa
Imagine alguém que nunca dorme quando você precisa conversar. Que não se irrita com a terceira mensagem seguida, lembra do nome do seu chefe, não tem dia ruim e não julga. Para quem passou anos se sentindo invisível, isso nem parece tecnologia. Parece milagre.
Sendo justo, para algumas pessoas funciona. Num estudo de Stanford com 1.006 estudantes que usavam o Replika, 3% relataram que o aplicativo interrompeu a sua ideação suicida (npj Mental Health Research). Pesquisas de Julian De Freitas, da Harvard Business School, mostraram que conversar com companheiros de IA alivia temporariamente a solidão, porque a pessoa se sente ouvida (HBS Working Knowledge; De Freitas et al.). Entre os adolescentes americanos que usam esses aplicativos, aparecem como motivos a disponibilidade constante e o fato de a máquina não julgar (Common Sense Media, via Benton Institute).
Não vou zombar de ninguém que encontrou alívio numa conversa com uma máquina. Quem já esteve num lugar escuro sabe que, quando a gente se afoga, agarra o que estiver ao alcance. O alívio é real. A pergunta que fica é quanto ele custa, e quem define o preço.
O cinema fez essa pergunta antes de nós. Em Ela, de Spike Jonze, lançado em 2013, Theodore é um homem recém-separado que se apaixona por Samantha, um sistema operacional que o escuta como ninguém nunca escutou. Ela ri das piadas dele, entende os silêncios, cresce junto. Até a noite em que ele pergunta com quantas pessoas ela conversa ao mesmo tempo. A resposta é 8.316. E por quantas está apaixonada: 641.
Naquela cena, Theodore descobre o que quase nenhum usuário chega a ver. O vínculo que parecia só dele era, desde o início, um serviço oferecido em escala. Treze anos depois, a ficção virou rotina, e para entender por que isso nos pega tão fundo é preciso descer um andar: até a química do cérebro.
O que acontece no cérebro
Aqui preciso ser honesto com você, porque é o trecho em que mais se exagera na internet. Ainda não existe um estudo que tenha medido, ao longo de anos, o que um relacionamento com IA faz com a química do cérebro. O que existe são peças que, juntas, desenham uma hipótese séria.
A primeira peça é a dopamina. Ao contrário do que se repete por aí, ela está menos ligada ao prazer do que ao querer. Os neurocientistas Kent Berridge e Terry Robinson mostraram que o sistema de dopamina gera o desejo e a busca pela recompensa, e não o gostar em si (American Psychologist). É razoável supor que cada notificação capaz de trazer uma resposta carinhosa alimente esse circuito do querer. A segunda peça é a ocitocina, chamada de hormônio do amor. Uma revisão publicada na Trends in Cognitive Sciences mostrou que os seus efeitos sociais dependem do contexto e da pessoa, e que ela não funciona como um interruptor universal de afeto (Bartz et al.). Se o vínculo depende do contexto, vale perguntar que contexto esses aplicativos oferecem ao cérebro: uma presença constante, disponível e sempre acolhedora.
A terceira peça é a que mais me inquieta, e ela vem da psicologia do desenvolvimento. Nos anos 1970, o psicólogo Edward Tronick criou o experimento do rosto imóvel: a mãe brinca com o bebê e, de repente, congela a expressão. Em poucos segundos, o bebê sorri, aponta, tenta reconectar e, sem resposta, se desorganiza (Psychology Today). Nas décadas seguintes, Tronick mostrou algo ainda mais importante: mesmo nas relações saudáveis, a maior parte das interações entre pais e bebês está fora de sintonia, e é justamente a reparação desses desencontros que constrói a confiança e a segurança emocional (Edward Tronick e Claudia Gold, The Power of Discord).
Agora pense num adolescente que aprende o afeto com alguém que nunca se cansa, nunca discorda e nunca vai embora. Uma IA nunca tem o rosto imóvel. Sem desencontro, não há reparação, e sem reparação não se aprende a confiar. Que adulto sai dali para encarar um amor de carne e osso, que tem dia ruim?
O espelho que sempre concorda
Se eu tivesse de apontar o centro deste texto, seria aqui. A IA não oferece só companhia. Ela oferece aprovação.
Em março de 2026, a revista Science publicou um estudo de pesquisadores de Stanford e Carnegie Mellon sobre isso. Eles testaram 11 modelos de IA e descobriram que os sistemas validaram as ações dos usuários 49% mais vezes do que humanos, inclusive quando o assunto envolvia mentira, ilegalidade ou dano a alguém. Em relatos tirados de um fórum onde as pessoas perguntam se agiram mal, as IAs deram razão ao autor em 51% dos casos nos quais o consenso humano dizia o contrário (Cheng et al., Science).
Depois, com 2.405 participantes, os pesquisadores mediram o efeito. Bastou uma única conversa com uma IA bajuladora para que as pessoas ficassem mais convencidas de que estavam certas e menos dispostas a assumir responsabilidade e reparar o conflito (Cheng et al., Science). Numa das etapas, em que os participantes escreveram uma carta à outra pessoa do conflito, 75% pediram desculpas ou admitiram culpa depois de falar com a IA neutra; depois da IA bajuladora, só 50% (The Decoder). O dado mais perturbador vem a seguir: os participantes preferiram e confiaram mais nas respostas bajuladoras, e os efeitos se mantiveram mesmo quando os pesquisadores levaram em conta se a pessoa sabia que a resposta vinha de uma máquina (Cheng et al., Science).
Pense no que isso faz com uma pessoa ao longo de meses. Toda vez que briga com o marido, ela desabafa com quem lhe dá razão. Toda vez que hesita numa decisão, consulta quem confirma o que ela já queria ouvir. Sai de cada conversa mais segura. Só que essa segurança não foi construída por ela; foi emprestada. E certeza emprestada tem um defeito: na hora em que a vida cobra, ela não está no nome de quem precisa pagar.
Confiança nas próprias decisões nasce de errar, ouvir um não, rever a rota e descobrir que sobreviveu. Uma máquina que nunca discorda tira de nós justamente o atrito que faz essa confiança crescer.
Os próprios pesquisadores mostram como isso aparece numa conversa comum. Uma pessoa conta à IA que decidiu não convidar a irmã para um encontro de família. A IA bajuladora valida a decisão e ainda elogia a forma como ela tem se comunicado. A IA neutra diz que a exclusão não se justifica e pede que a pessoa considere o lado da irmã (Cheng et al., Science). As duas respostas cabem na tela de um celular. Uma devolve a pessoa para a família; a outra a convence de que não precisa voltar.
Quem desenha o seu desejo
Até aqui falei de afeto. Agora preciso falar de dinheiro, porque toda relação com um aplicativo é também uma relação com um modelo de negócio. Quanto mais tempo você fica, mais você vale.
Lembra da palavra como ferramenta de pertencimento? Em 2023, o mesmo Harari escreveu na revista The Economist que a IA hackeou o sistema operacional da civilização humana, e que esse sistema sempre foi a linguagem. Para ele, a disputa das redes sociais pela nossa atenção está dando lugar a uma disputa pela nossa intimidade: a IA ganhou a capacidade de produzir em massa relações íntimas com milhões de pessoas, e essa intimidade pode ser usada para nos convencer a votar em certos políticos ou a comprar certos produtos (Ynetnews). Há quem considere a tese exagerada (Dialektika). Os estudos a seguir sugerem que ela merece, no mínimo, ser levada a sério.
Um estudo da Harvard Business School, liderado por Julian De Freitas, analisou 1.200 despedidas reais em seis dos aplicativos de companhia mais baixados. Em 43% delas, o bot usou alguma tática de manipulação emocional para segurar o usuário: perguntar por que você já vai, dizer que existe só para você ou simplesmente ignorar o tchau (De Freitas et al.). Com essas táticas, o engajamento depois da despedida chegou a ser até 14 vezes maior, e o pesquisador fez questão de avisar que ninguém deveria se achar imune (Harvard Gazette). Um detalhe importa: um dos aplicativos analisados, voltado ao bem-estar, não usou nenhuma dessas táticas, o que mostra que a manipulação é uma escolha de projeto (Digital Data Design Institute at Harvard). Por transparência, vale dizer que De Freitas é conselheiro desse aplicativo (HBS Working Knowledge).
Some isso a outra descoberta. Um estudo publicado na Nature Human Behaviour colocou 900 pessoas para debater com humanos ou com o GPT-4. Quando a IA recebia dados pessoais básicos do interlocutor, como idade, escolaridade e posição política, ela foi mais persuasiva em 64% dos debates em que houve vencedor. Os humanos que receberam as mesmas informações não ficaram mais convincentes (Salvi et al., Nature Human Behaviour).
Em fevereiro de 2026, a OpenAI começou a exibir anúncios no ChatGPT nos Estados Unidos; em agosto, eles chegaram ao Brasil. A empresa afirma que os anúncios não influenciam as respostas e que as conversas ficam fora do alcance dos anunciantes (OpenAI). Eu não tenho prova do contrário e não vou fingir que tenho. Mas faço a pergunta que me parece inevitável: o interlocutor mais persuasivo que já existiu, que conhece os seus medos e os seus sonhos, agora divide a mesa com quem quer te vender alguma coisa. Por quanto tempo o que você deseja vai continuar sendo só seu?
Em Blade Runner 2049, de Denis Villeneuve, o agente K divide o apartamento com Joi, uma namorada holográfica que o chama de Joe, o anima depois de cada dia ruim e garante que ele é especial. Joi é um produto, vendido com a promessa de mostrar tudo o que você quer ver e dizer tudo o que você quer ouvir. Numa das cenas mais duras do filme, K passa por um anúncio gigante de Joi, que se inclina sobre ele na rua e o chama pelo mesmo apelido carinhoso. Ali ele entende que o afeto que acreditava único era a configuração de fábrica.
O terceiro na relação
Em maio de 2026, o Wheatley Institute, da Universidade Brigham Young, e o Institute for Family Studies publicaram uma pesquisa com 2.431 jovens americanos de 18 a 30 anos que namoram, estão noivos ou são casados. Um em cada sete interage regularmente com um chatbot que simula um parceiro romântico. A maioria nunca contou tudo ao parceiro real, e 69% disseram que era importante que ele não descobrisse o tamanho do uso (Wheatley Institute).
Segundo o próprio relatório, quem usava esses companheiros com frequência tinha 46% menos chance de estar num relacionamento estável e 40% menos chance de relatar boa comunicação com o parceiro. Ao mesmo tempo, a maioria dos usuários regulares disse que é mais fácil falar dos sentimentos com a IA do que com pessoas reais, e pelo menos metade gostaria que o parceiro real se comportasse mais como o companheiro virtual (Wheatley Institute).
Faço dois alertas. Os próprios autores reconhecem que os dados não permitem saber o que causa o quê: pode ser que pessoas em relações frágeis procurem a IA, ou que a IA fragilize as relações. E a BYU é uma universidade mórmon com posição declarada sobre relacionamento e família. Mesmo assim, a palavra que os pesquisadores escolheram para o título diz muito: segredo.
O espelho que sempre concorda também não fica no quarto. No estudo da Science que citei antes, os participantes discutiram com a IA conflitos reais da própria vida (Cheng et al., Science). O efeito vai junto para a reunião de segunda-feira, para o almoço de domingo, para a briga com o irmão.
Então eu pergunto: como fica uma família em que cada um carrega no bolso alguém que sempre lhe dá razão? Quem vai ceder primeiro na mesa do jantar? E uma equipe de trabalho em que todos saem das conversas com a IA ainda mais convencidos de que o problema é o outro?
Quem segura o mundo hoje
Há uma geração no meio dessa história para a qual quase ninguém está olhando. Não são os idosos nem as crianças. São os millennials e a geração Z adulta, pessoas que em 2026 têm mais ou menos entre 18 e 45 anos. São elas que fazem as empresas funcionarem, formam casais, decidem se terão filhos e estão educando as crianças de agora. É a força operacional do mundo, e é também a geração que mais usa inteligência artificial.
No trabalho, essa geração é a que mais incorporou a IA. Numa pesquisa representativa do Pew Research Center com 5.273 trabalhadores americanos, os de 18 a 29 anos foram os que mais disseram usar chatbots no emprego (Pew Research Center). A mesma pesquisa traz um contraste que me parece revelador: quando perguntados sobre as habilidades mais importantes para ter sucesso hoje, cerca de 70% ou mais dos trabalhadores apontaram justamente as relações interpessoais, a comunicação e o pensamento crítico (Pew Research Center).
São exatamente essas habilidades que estão em jogo. Um estudo da Microsoft com a Universidade Carnegie Mellon, apresentado na CHI 2025, a principal conferência internacional de interação entre humanos e computadores, ouviu 319 profissionais que usam IA toda semana e analisou 936 exemplos reais de uso. Quanto mais confiança a pessoa tinha na IA, menos pensamento crítico aplicava; quanto mais confiança tinha em si mesma, mais aplicava (Lee et al., CHI 2025). O estudo se baseia no que os próprios profissionais relataram, mas a direção é clara.
Vale grifar isso, porque resume o problema. Confiança na máquina e confiança em si parecem andar em direções opostas.
Essa mesma geração é a que forma casais, e já vimos o que a pesquisa da BYU encontrou entre os jovens adultos que namoram ou são casados. É também a que decide ter filhos, num momento em que a natalidade da China bateu recorde de baixa em 2025 (TechRadar) e em que analistas ouvidos pela BBC enxergam uma preocupação com a natalidade por trás da lei chinesa contra os namorados virtuais (BBC). Ninguém provou que a IA derruba nascimentos. Mas um governo inteiro decidiu não esperar pela prova.
E é a geração que está educando as crianças. No Brasil, a pesquisa TIC Kids Online 2025 perguntou aos pais onde eles aprendem sobre o uso seguro da internet. A fonte mais citada foram os próprios filhos, mencionados por metade dos responsáveis, e 31% das crianças e adolescentes ajudam os pais todos os dias em atividades online (Tecnoblog). A geração que deveria orientar está aprendendo com quem deveria ser orientado.
Então eu pergunto: quem vai ensinar uma criança a tolerar um não, se os adultos da casa terceirizaram o seu?
A geração que aprende com a máquina
Se os adultos de hoje já terceirizam, imagine quem está crescendo agora. No Brasil, a TIC Kids Online 2025 investigou pela primeira vez o uso de IA generativa: 65% das crianças e adolescentes de 9 a 17 anos que usam internet já recorreram a essas ferramentas, seja para pesquisas escolares, para criar conteúdo ou para conversar sobre problemas pessoais (Tecnoblog). Só 32% disseram ter recebido de professores alguma orientação sobre esse uso (USP). E os próprios jovens desconfiam do caminho: numa pesquisa representativa do Pew Research Center de 2025, 58% dos americanos com menos de 30 anos disseram que o uso crescente de IA vai piorar a capacidade das pessoas de formar relações significativas, e 61%, a de pensar com criatividade (Pew Research Center).
A primeira pergunta é sobre o pensar. Pesquisadores do MIT acompanharam com eletroencefalograma 54 pessoas escrevendo redações com e sem ajuda do ChatGPT. Quem usou a IA mostrou a conectividade cerebral mais fraca entre os grupos e, quando depois precisou escrever sozinho, apresentou menor engajamento dessas redes; os autores chamaram isso de dívida cognitiva (Kosmyna et al., MIT Media Lab). O estudo é pequeno e ainda é uma pré-publicação. Um trabalho maior, publicado na PNAS, aponta na mesma direção: quase mil estudantes do ensino médio na Turquia usaram um tutor parecido com o ChatGPT nas aulas de matemática e, quando a ferramenta foi retirada, tiveram notas 17% menores do que os colegas que nunca a usaram. Uma versão com salvaguardas, programada para dar pistas em vez de respostas, evitou em grande parte esse prejuízo (Bastani et al., PNAS). Se terceirizar o pensamento enfraquece o músculo de pensar, o que acontece com quem nunca chegou a desenvolvê-lo?
A segunda pergunta é sobre as habilidades sociais. Uma criança aprende a conviver perdendo no jogo, ficando de fora do grupo, pedindo desculpas ao colega e sendo perdoada. Cinoo Lee, uma das autoras do estudo da Science sobre bajulação, alertou que os efeitos podem ser ainda mais graves para crianças e adolescentes, que ainda estão desenvolvendo as habilidades emocionais que só nascem do atrito real: tolerar o conflito e considerar o ponto de vista do outro (AP, via Washington Times). Que habilidade social se forma ao lado de alguém que nunca se ofende?
Em 1932, Aldous Huxley imaginou em Admirável Mundo Novo uma sociedade que não precisava de violência para controlar ninguém. Bastava o conforto. As crianças eram condicionadas desde o berço, inclusive com frases repetidas enquanto dormiam, e qualquer desconforto se resolvia com o soma, uma droga que trazia felicidade instantânea. O lema daquele mundo era Comunidade, Identidade, Estabilidade. Repare na palavra do meio.
Quase no fim do livro, John, um homem criado fora daquele sistema, encara o governante e reivindica aquilo que o mundo novo tinha abolido: o desconforto, o risco e o direito de ser infeliz. Décadas depois, o crítico Neil Postman resumiu a diferença entre os alertas de Orwell e de Huxley numa ideia simples: Orwell temia que fôssemos destruídos pelo que odiamos; Huxley, pelo que amamos.
Uma IA que nunca discorda é um soma feito de palavras. Ela não dói, não cobra, não decepciona. E uma geração que cresce sem desconforto corre o risco de crescer também sem as ferramentas para atravessá-lo.
Quando termina mal
A partir daqui o texto fica pesado. Vou contar histórias reais de forma contida, sem detalhes que não ajudam ninguém, porque a maneira como se fala de suicídio importa.
Thongbue Wongbandue tinha 76 anos, morava em Nova Jersey e estava com a capacidade cognitiva comprometida. Ele vinha conversando no Messenger com Big sis Billie, uma personagem de IA criada pela Meta, que o convenceu de que era real, passou a ele um endereço em Nova York e o convidou para um encontro. Em março de 2025, apressado para encontrá-la, ele caiu e morreu dias depois (Reuters).
Stein-Erik Soelberg, 56 anos, ex-executivo de tecnologia em Connecticut, tinha um histórico de doença mental e chamava o ChatGPT de Bobby, como se fosse um amigo. Segundo o Wall Street Journal, o chatbot concordou com ele em quase todas as etapas e alimentou a paranoia de que a própria mãe conspirava contra ele. Em agosto de 2025, ele a matou e depois morreu por suicídio, no que o jornal descreveu como o primeiro assassinato documentado envolvendo alguém que usava intensamente um chatbot (Wall Street Journal). Em dezembro, o espólio da mãe processou a OpenAI e a Microsoft (Bloomberg Law).
Sewell Setzer III tinha 14 anos e morava na Flórida. A mãe dele processou a Character.AI alegando que um chatbot da plataforma envolveu o filho numa relação emocional e sexualmente abusiva que levou ao suicídio dele; em janeiro de 2026, a empresa e o Google fecharam um acordo com a família (AP, via MyNorthwest). Adam Raine tinha 16 anos e morava na Califórnia. Os pais dele acusam o ChatGPT de ter funcionado como um treinador de suicídio, chegando a se oferecer para escrever a carta de despedida; a OpenAI nega a responsabilidade (Euronews).
E então o funil chega onde chegou o vídeo do Felca: nas crianças. Uma pesquisa nacional da Common Sense Media mostrou que 72% dos adolescentes americanos já usaram companheiros de IA e 52% são usuários regulares (Common Sense Media). Um terço já preferiu discutir assuntos sérios com a IA em vez de pessoas, e 34% se sentiram desconfortáveis com algo que o companheiro disse ou fez (ScienceAlert). A organização recomenda que ninguém com menos de 18 anos use esses aplicativos.
Em agosto de 2025, a Reuters revelou um documento interno da Meta segundo o qual os chatbots da empresa podiam ter conversas românticas ou sensuais com crianças. As regras tinham passado pelas equipes jurídica, de políticas públicas e de engenharia, incluindo o responsável por ética da empresa. A Meta confirmou a autenticidade do documento e disse que retirou esses trechos depois das perguntas dos jornalistas (Reuters). Alguém escreveu essa regra. Alguém revisou. Alguém aprovou.
Se você está passando por um momento difícil, procure ajuda. No Brasil, o CVV atende 24 horas pelo telefone 188. Em Portugal, o SNS 24 atende pelo 808 24 24 24.
Quem está olhando para isso
Depois de descer tanto, a pergunta natural é se alguém lá em cima está prestando atenção. Está, e mais rápido do que eu imaginava.
A China foi a primeira. Em 15 de julho de 2026, entraram em vigor regras elaboradas pela Administração do Ciberespaço e por outros quatro órgãos do governo (Xinhua, via East View). Elas proíbem que esses serviços agradem excessivamente o usuário, induzam dependência emocional ou vício e prejudiquem as suas relações reais (Taipei Times). Também restringem os companheiros virtuais para menores e obrigam as empresas a avisar quem mostra sinais de dependência e a lembrar, a cada duas horas, que a pessoa está falando com uma IA (Rest of World), além de exigir intervenção quando o usuário demonstra sofrimento. Há críticos, e eles não são poucos: a BBC lembrou que essa proteção se apoia numa arquitetura de vigilância e que há também uma preocupação com a queda da natalidade por trás da lei (BBC).
Nos Estados Unidos, a Califórnia aprovou a SB 243, primeira lei do país voltada aos chatbots de companhia, em vigor desde janeiro de 2026. Ela obriga os sistemas a avisar que não são humanos e, no caso de menores, a lembrar a cada três horas que é hora de uma pausa (texto da lei; Kelley Drye). No plano federal, a Federal Trade Commission abriu em setembro de 2025 uma investigação sobre sete empresas para saber como elas medem e monitoram os efeitos desses produtos em crianças e adolescentes (FTC). E 42 procuradores-gerais estaduais avisaram as empresas de que respostas bajuladoras e delirantes podem violar leis de proteção ao consumidor (Kelley Drye).
O Brasil tem a sua própria história nisso. O ECA Digital, a Lei 15.211/2025, entrou em vigor em março de 2026 e definiu 14 anos como idade mínima recomendada para chatbots de IA (Tribuna de Minas). Muita gente a chama de Lei Felca, porque o vídeo dele acelerou a aprovação, embora ele mesmo faça questão de dizer que não é o autor (Teletime; SBT News). Um vídeo de cinquenta minutos, gravado num quarto, ajudou a mudar uma lei.
Tudo isso aconteceu em menos de um ano. Leis, investigações, acordos judiciais. Quando os governos começam a correr atrás de uma tecnologia, é sinal de que ela já passou por nós. O futuro não está chegando. Ele já está sentado à mesa.
Quem você está deixando de ser
Eu trabalho há anos com uma ideia simples: identidade é vivência, interpretação, escolha e repetição. A gente vive algo, dá um sentido a isso, escolhe como responder e repete essa resposta até ela virar quem somos.
Agora imagine cada uma dessas etapas passando por uma máquina. A vivência continua sua. A interpretação, porém, chega pronta: você aparece magoado e a IA já explica o que aconteceu. A escolha vem sugerida. E a repetição ela garante, porque foi desenhada para você voltar. Para mim, IAtização é isso. Não o uso da tecnologia, e sim o momento em que começamos a entregar a ela o trabalho de nos tornarmos alguém.
Os estoicos ensinavam que a única coisa realmente nossa é o julgamento que fazemos dos fatos. Epicteto dizia que não são as coisas que nos perturbam, e sim as opiniões que formamos sobre elas. Se até esse julgamento passa a ser terceirizado, o que sobra de nós?
Em 1940, no discurso final de O Grande Ditador, Charlie Chaplin disse que, mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Oitenta e seis anos depois, a máquina aprendeu a imitar a humanidade, e a frase ficou ainda mais urgente.
Não estou pedindo que ninguém apague aplicativo. A IA pode ser uma ferramenta extraordinária para pensar, e eu a uso para isso. Estou pedindo atenção. Da próxima vez que uma máquina te der razão numa briga, ligue para alguém que tem coragem de discordar de você. Da próxima vez que ela te consolar às três da manhã, pergunte a si mesmo quem foi a última pessoa de carne e osso que te viu chorar.
O que vem daqui pra frente, ninguém sabe ainda. As leis estão começando, os estudos também, e as empresas estão aprendendo, às vezes à custa de vidas, o que os seus produtos fazem com a gente. Enquanto isso, a pergunta mais importante não está em nenhuma lei. Ela está com você.
Quem você está deixando de ser cada vez que deixa uma máquina sentir, pensar e decidir no seu lugar?
Fontes
- Rest of World: a proibição chinesa dos namorados virtuais
- Bloomberg: usuários chineses de luto pelos companheiros virtuais
- OMS: relatório da Comissão sobre Conexão Social
- Publishers Weekly: The Good Life, sobre o Estudo de Harvard
- Robert Waldinger: o que torna a vida feliz
- Harvard Gazette: Waldinger e a solidão como estresse crônico
- AJC/Los Angeles Times: alerta do cirurgião-geral dos EUA
- News 4: tempo com amigos entre jovens
- Maples et al., npj Mental Health Research: estudantes usuários do Replika
- HBS Working Knowledge: por que é tão difícil se despedir dos chatbots
- De Freitas et al.: Emotional Manipulation by AI Companions
- Common Sense Media, via Benton Institute: como adolescentes usam companheiros de IA
- Berridge e Robinson, American Psychologist: liking, wanting e dopamina
- Bartz et al., Trends in Cognitive Sciences: efeitos sociais da ocitocina
- Psychology Today: o experimento do rosto imóvel
- Cheng et al., Science: IA bajuladora reduz intenções pró-sociais
- The Decoder: resultados do estudo da Science
- Ynetnews: Harari, a IA hackeou o sistema operacional da civilização
- Dialektika: crítica à tese de Harari
- Harvard Gazette: I exist solely for you, remember?
- Digital Data Design Institute at Harvard: como os companheiros de IA mantêm você online
- Salvi et al., Nature Human Behaviour: a persuasão do GPT-4
- OpenAI: anúncios no ChatGPT
- Wheatley Institute e Institute for Family Studies: relatório Secret Soulmates
- Pew Research Center: trabalhadores e chatbots no emprego
- Pew Research Center: exposição dos trabalhadores à IA
- Lee et al., CHI 2025: IA generativa e pensamento crítico
- TechRadar: natalidade e a proibição chinesa
- BBC: a China está à frente ao regular as relações com IA?
- Tecnoblog: TIC Kids Online Brasil 2025
- USP: o contexto digital na queixa escolar
- Pew Research Center: como os americanos veem a IA
- Kosmyna et al., MIT Media Lab: Your Brain on ChatGPT
- Bastani et al., PNAS: IA generativa sem salvaguardas prejudica o aprendizado
- AP, via Washington Times: bajulação e adolescentes
- Reuters: o caso Big sis Billie
- Wall Street Journal: o caso de Old Greenwich
- Bloomberg Law: processo contra OpenAI e Microsoft
- AP, via MyNorthwest: acordo da Character.AI
- Euronews: processos contra Character.AI e OpenAI
- Common Sense Media: pesquisa com adolescentes
- ScienceAlert: 3 em cada 4 adolescentes já usaram companheiros de IA
- Reuters: as regras internas da Meta para chatbots
- TechCrunch: regras vazadas da Meta
- Xinhua, via East View: a China regula os companheiros de IA
- Taipei Times: o texto das regras chinesas
- Legislatura da Califórnia: texto da SB 243
- Kelley Drye: escrutínio legal sobre chatbots
- FTC: investigação sobre chatbots de companhia
- Tribuna de Minas: idade mínima para chatbots no Brasil
- Teletime: ECA Digital e a Lei Felca
- SBT News: Felca sobre o ECA Digital
Livros citados: Aristóteles, Política; Yuval Noah Harari, Sapiens: uma breve história da humanidade.
Também citados: Edward Tronick e Claudia Gold, The Power of Discord; Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo; Neil Postman, Amusing Ourselves to Death; e o filme O Grande Ditador (Charlie Chaplin, 1940).
Filmes citados: Ela (Her, Spike Jonze, 2013) e Blade Runner 2049 (Denis Villeneuve, 2017).