Blog · Autoestima
Baixa autoestima: quando o seu valor depende do que você entrega
Por Petrus Lucchesi
23 de outubro de 2026 · 6 min de leitura
Era 24 de dezembro, perto das oito da noite. Eu trabalhava num quiosque vendendo óculos de sol e estava em primeiro lugar nas vendas do período. Tinha trabalhado muito por aquilo. Durante a semana do Natal, entrava às nove da manhã e saía às onze da noite. Abri mão de descanso e de estar com a família para chegar àquele resultado.
Então entrou um homem apressado. Um colega o atendeu. Numa única compra, ele levou quinze óculos, mais acessórios, para presentear a família. O placar mudou. Eu terminei em segundo.
Fui embora andando e chorando naquela noite. O que me atingia era maior do que a frustração de perder uma colocação. Eu me sentia pequeno, inútil, como se todo o esforço terminasse na mesma conclusão que já conhecia: ainda não era suficiente.
Conto essa passagem em A Identidade Roubada porque ela ajuda a mostrar algo difícil de perceber quando se olha apenas para o resultado de alguém. Eu estava vendendo, trabalhando, entregando. Mas tinha colocado naquela posição a responsabilidade de provar que eu valia alguma coisa.
Quando uma conquista precisa responder quem você é
Talvez você não se reconheça na imagem de alguém com baixa autoestima. Você assume responsabilidades, resolve problemas, conquista coisas. As pessoas podem procurar sua ajuda e reconhecer sua capacidade. Ainda assim, pode haver uma condição por trás de tudo isso: preciso continuar entregando para conseguir me considerar suficiente.
Uma conquista faz bem, e isso é compreensível. O que quero investigar é o tamanho da queda quando ela não vem. Você fica decepcionado com o resultado ou começa a duvidar de que merece respeito, afeto e lugar entre as pessoas?
No meu caso, o objetivo se repetia em ambientes diferentes. Como eu me tornava o melhor? Como chegava ao topo? Como conseguia ser visto de uma maneira que finalmente afastasse aquela sensação de ser pequeno?
Houve conquistas reais nesse percurso. A farda me deu trabalho, experiência e segurança financeira. Também mudou a forma como muitas pessoas me tratavam. Eu conseguia perceber respeito e atenção que, durante muito tempo, não soube reconhecer dirigidos ao Petrus sem alguma coisa que me representasse primeiro.
Depois havia outros lugares de confirmação. Festas, gente por perto, uma vida cheia de movimento. No livro, conto também o aniversário para o qual usei uma reserva que havia começado a formar. Eu queria ser visto, lembrado, admirado. Entender isso hoje não apaga o que vivi nem significa que toda alegria daquela época fosse uma encenação. Ajuda a reconhecer o que eu esperava receber por meio dela.
O alívio dura enquanto a prova continua funcionando
Pense em alguém que só consegue se sentir importante enquanto é indispensável. Resolve um problema e recebe reconhecimento. Naquele momento, encontra alívio. Mas, quando ninguém precisa de nada, começa a se perguntar se ainda faz falta.
Outra pessoa talvez apoie a avaliação de si em ser a mais competente, a mais admirada ou a que nunca decepciona. O lugar muda, mas a pergunta pode ser parecida: o que precisa continuar acontecendo para eu conseguir ficar em paz comigo?
Na psicologia, Jennifer Crocker e Connie Wolfe propuseram um modelo sobre as condições nas quais apoiamos o próprio valor. A ideia é observar os campos em que sucessos e fracassos fazem a autoestima oscilar mais, porque é neles que a pessoa colocou uma parte importante da avaliação de si. Crocker e Wolfe, 2001.
Eu aproximo essa ideia da minha história para compreender por que um segundo lugar ganhou um peso tão grande. A colocação tinha mudado. O esforço realizado, tudo o que eu tinha vendido e o que sabia fazer não tinham desaparecido. Mas eu estava usando o resultado para responder uma pergunta que nenhuma venda conseguiria encerrar de vez.
Quando uma conquista precisa garantir seu valor como pessoa, a próxima dificuldade pode reabrir todo o julgamento. Você continua entregando porque há objetivos importantes, mas também porque parar de provar parece arriscado demais.
O que acontece com você quando o resultado falha?
Uma pesquisa publicada em março de 2026 estudou 176 atletas de elite na Suécia. Os dados relacionaram a autoestima apoiada no desempenho, a vergonha diante de uma falha, a ansiedade competitiva e o esgotamento no esporte. Os autores destacaram a vergonha como uma possível parte dessa ligação. O estudo recolheu informações num único momento, portanto não estabelece uma sequência de causas nem permite generalizar para toda pessoa que se dedica a um objetivo. Funke e Gustafsson, 2026.
Para a nossa conversa, vale observar como você interpreta uma dificuldade. “Eu queria muito e estou decepcionado” permite reconhecer uma perda. “Agora todos vão perceber que não valho nada” coloca a pessoa inteira sob ameaça.
A formação que levo para o meu trabalho terapêutico participa desse olhar para o significado. Quero entender o que uma colocação, uma crítica ou um elogio passou a representar na história de alguém. Quando ser reconhecido começou a parecer uma condição para poder se reconhecer?
Essa pergunta pode levar a experiências de comparação, cobrança ou afeto sentido como dependente de desempenho. Também pode encontrar uma vida adulta em que o reconhecimento continua escasso e as exigências aumentam o tempo inteiro. Não há uma origem única a ser escolhida antes de compreender a pessoa.
Existem consequências reais, e elas também importam
Uma meta pode afetar sua renda. Uma avaliação pode influenciar o emprego. Perder uma oportunidade pode exigir mudanças importantes. Seria injusto tratar qualquer preocupação com resultado como sinal de um problema na autoestima.
O que estou propondo é considerar, junto dessas consequências, a forma como você passa a se tratar. Há uma dificuldade financeira a enfrentar? Algo no trabalho precisa ser revisto? Você precisa se preparar melhor, negociar condições ou procurar outro caminho? Essas questões merecem atenção concreta.
Mas ser obrigado a rever um plano não significa que deixou de merecer cuidado. Ter menos dinheiro, perder uma posição ou precisar de ajuda não deveria retirar de você a condição de ser alguém que importa.
Também vale olhar para os vínculos atuais. Existem pessoas que conseguem estar perto quando você não tem uma solução, um convite ou uma vantagem a oferecer? Você permite que conheçam essa parte sua ou procura voltar rapidamente ao papel de quem entrega?
Uma pergunta para levar para a próxima dificuldade
Quando algo não sair como esperava, tente reconhecer qual foi a perda. Uma colocação? Um valor em dinheiro? Uma oportunidade? A aprovação de alguém? Depois observe o que passou a concluir sobre si a partir dela.
Talvez haja algo a aprender ou reparar. Talvez você precise viver uma frustração sem conseguir resolvê-la naquele dia. Mas procure perceber quando a conclusão cresce tanto que já não descreve o acontecimento: você deixa de avaliar o que fez e começa a discutir se merece continuar sendo considerado.
Um acompanhamento profissional pode ajudar a compreender essa exigência, sua história e os modos como ela participa das relações. O trabalho precisa abrir espaço para a pessoa que existe enquanto conquista e também quando está cansada, falha ou precisa de alguém.
Naquela noite de Natal, eu tinha uma colocação para lamentar. Acabei levando para casa uma condenação muito maior. Ao contar isso, quero convidar você a observar o peso que seus resultados estão recebendo.
Você pode querer fazer um bom trabalho e se alegrar com uma conquista. Mas, quando o resultado muda, é importante conseguir olhar para si sem concluir que tudo o que merece receber também mudou com ele.
Se quiser olhar para isso de forma individual
Conhecer o atendimento em hipnoterapia